Atualização científica — Retina

    Implante PRIMA: o chip que devolveu a leitura na DMRI seca

    Pela primeira vez, um dispositivo implantado na retina devolveu de forma objetiva a capacidade de ler letras, números e palavras a olhos que haviam perdido a visão central. Entenda o que foi aprovado na Europa, o que os estudos mostram e o que ainda falta para chegar ao Brasil.

    Dr. Iuri David CastroOftalmologista — Retina e Catarata · CRM-MG 53.898Atualizado em agosto de 2026

    O que aconteceu

    O implante de retina PRIMA, desenvolvido pela Science Corporation, recebeu a marcação CE — a certificação que autoriza a comercialização de dispositivos médicos na Europa. Com isso, ele passa a poder ser oferecido em 30 países europeus, e os primeiros procedimentos comerciais estão previstos para a Alemanha.

    A relevância não está no carimbo regulatório em si, mas no que ele representa. Até agora, a atrofia macular geográfica — a forma avançada da degeneração macular relacionada à idade (DMRI) na sua versão seca — não tinha nenhum tratamento capaz de recuperar a visão central já perdida. As terapias existentes buscam retardar a progressão da lesão. Nenhuma devolvia o que já havia sido perdido.

    O PRIMA é o primeiro dispositivo autorizado na Europa com essa finalidade.


    Antes de tudo: o que é atrofia macular geográfica

    A mácula é a região central da retina, responsável pela visão de detalhe: ler, reconhecer rostos, enfiar linha na agulha. Na DMRI seca avançada, as células fotorreceptoras dessa região morrem progressivamente e deixam uma área de atrofia — daí o nome atrofia macular geográfica.

    O resultado é uma mancha escura ou vazia bem no centro do campo visual. A visão periférica costuma permanecer, o que permite andar pela casa e se orientar no ambiente, mas a leitura e o reconhecimento de rostos se tornam impossíveis. É uma das principais causas de cegueira legal em pessoas acima dos 60 anos, e atinge cerca de 5 milhões de pessoas no mundo.

    Um detalhe que explica por que o PRIMA funciona: na atrofia macular geográfica, morrem os fotorreceptores, mas boa parte dos demais neurônios da retina continua viva e funcional. O caminho até o cérebro está preservado — falta quem capte a luz e inicie o sinal.


    Como a tecnologia funciona

    O sistema tem três partes: um microchip implantado no olho, um óculos com câmera e um processador de bolso.

    O implante é um chip de silício de 2 x 2 milímetros e apenas 30 micrômetros de espessura — mais fino que um fio de cabelo —, com 378 células fotovoltaicas. Ele é posicionado cirurgicamente abaixo da retina, no espaço sub-retiniano, exatamente sob a área atrofiada.

    Chip do implante PRIMA seguro por uma pinça cirúrgica, mostrando a superfície formada por centenas de células fotovoltaicas hexagonais.
    O chip do implante PRIMA seguro por uma pinça cirúrgica. A superfície em favo reúne as 378 células fotovoltaicas que recebem a luz infravermelha projetada pelo óculos.Imagem: Science Corporation / divulgação.
    1. 1A câmera capta a cenaUma câmera montada no óculos registra o que está à frente do paciente.
    2. 2O processador interpreta a imagemUm pequeno computador de bolso converte a cena em um padrão de luz, com recurso de zoom para ampliar letras.
    3. 3O óculos projeta luz infravermelhaEsse padrão é projetado para dentro do olho em luz infravermelha, invisível e indolor.
    4. 4O chip converte o sinal em estímulo elétricoO implante transforma a luz infravermelha recebida em estimulação elétrica dirigida aos neurônios da retina. Não há bateria nem fios: é a própria luz projetada que ativa o dispositivo.
    5. 5A retina leva o sinal ao cérebroOs neurônios remanescentes da retina recebem o estímulo e o transmitem pelo nervo óptico, como fariam com um sinal natural.
    Esquema do sistema PRIMA: óculos com câmera capta a cena da rua e projeta um feixe de luz infravermelha para dentro do olho, até o chip posicionado sob a mácula.
    O caminho completo do sinal: a câmera do óculos capta a cena, o processador a converte em um padrão de luz infravermelha e o feixe é projetado até o chip, posicionado sob a mácula.Ilustração: Dr. Iuri David Castro.

    A ausência de fios atravessando a parede do olho é uma diferença importante em relação aos implantes de retina de gerações anteriores: simplifica a cirurgia e reduz riscos de complicação a longo prazo.


    O que o estudo mostrou

    Estudo PRIMAvera, publicado no New England Journal of Medicine em janeiro de 2026. Foram 38 pacientes acompanhados em 17 centros de cinco países europeus; 32 completaram os 12 meses de seguimento.

    84%voltaram a identificar letras, números e palavras com a visão protética
    81%tiveram melhora clinicamente significativa da acuidade visual em 12 meses (26 dos 32 pacientes)
    25,5 letrasde ganho médio na tabela ETDRS — mais de cinco linhas
    Preservadaa visão periférica natural manteve-se equivalente à do início do estudo

    O último número merece destaque. Devolver visão central ao custo de comprometer a periférica seria uma troca ruim: é a visão periférica que permite ao paciente caminhar com segurança. O implante foi posicionado sob a área já atrofiada, sem prejuízo da visão natural remanescente.

    E os riscos?

    Trata-se de uma cirurgia intraocular, e o estudo registrou isso com transparência: 26 eventos adversos graves em 19 dos 38 participantes. A maior parte — 81% — ocorreu nos dois primeiros meses após a cirurgia, e 95% desses se resolveram em até dois meses. Quatro foram classificados como graves: buraco macular de espessura total, hipertensão ocular, descolamento de retina e vitreorretinopatia proliferativa.

    Os autores observam que esse perfil de complicações é compatível com o que se espera de uma vitrectomia com manipulação sub-retiniana. A cirurgia envolve vitrectomia seguida da introdução do chip por uma pequena retinotomia, e leva menos de duas horas nas mãos de um cirurgião de retina treinado.


    Para quem o implante é indicado

    Os critérios do estudo dão a medida de quem se beneficia. Foram incluídos pacientes com atrofia macular geográfica envolvendo a fóvea, com lesão maior que 2,4 mm, e acuidade visual de 1,2 logMAR ou pior — algo em torno de 20/300. Ou seja: perda central já grave e consolidada, nos dois olhos.

    Isso significa que o PRIMA não é destinado a quem tem DMRI inicial ou intermediária, nem a quem tem a forma úmida da doença — esta já conta com tratamento estabelecido por injeções intravítreas de antiangiogênicos. Quem está nessas fases tem outras condutas disponíveis, e o acompanhamento regular continua sendo o que muda o desfecho.

    O que o implante não faz

    Não é cura, e não devolve a visão que a pessoa tinha antes da doença. A visão obtida é protética: em tons de cinza, com resolução limitada, e exige um período de treinamento e reabilitação até que o paciente aprenda a interpretar o que passa a enxergar. O objetivo é funcional — voltar a ler, ganhar autonomia —, não restaurar a visão original.


    E no Brasil?

    Aqui é preciso ser direto: o PRIMA ainda não está disponível no Brasil e não há previsão de chegada. O dispositivo não foi submetido à análise da Anvisa até o momento. Nos Estados Unidos, segue em avaliação pelo FDA, onde recebeu as designações de Breakthrough Device e Humanitarian Use Device, que aceleram a tramitação, mas não equivalem a aprovação.

    O caminho habitual para tecnologias desse porte é o registro em mercados maiores primeiro, seguido da submissão à agência brasileira. Não há como estimar prazo com honestidade.

    A fabricante também estuda o uso da tecnologia em doenças hereditárias da retina, como a doença de Stargardt e a retinose pigmentar. São indicações ainda em desenvolvimento, sem estudos clínicos concluídos e sem aprovação — vale acompanhar, sem criar expectativa de prazo.

    Sobre esta página: este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educativa. O implante PRIMA não é oferecido nesta clínica nem em nenhum serviço no Brasil, por não possuir registro na Anvisa. Nenhuma informação aqui substitui a avaliação individual com seu oftalmologista.


    Perguntas frequentes

    Quem tem DMRI seca vai enxergar normalmente de novo?+
    Não. A visão obtida com o implante é protética: em tons de cinza e com resolução limitada. Nos estudos, os pacientes voltaram a identificar letras, números e palavras, o que representa um ganho expressivo de autonomia — mas é diferente da visão natural, e exige treinamento para ser interpretada.
    O implante serve para a DMRI úmida?+
    Não. O PRIMA foi estudado na atrofia macular geográfica, forma avançada da DMRI seca. A forma úmida tem tratamento próprio e consolidado, com injeções intravítreas de medicamentos antiangiogênicos, cuja indicação depende de avaliação individual.
    Quanto tempo dura a cirurgia?+
    Menos de duas horas quando realizada por cirurgião de retina treinado. O procedimento consiste em vitrectomia seguida da colocação do chip no espaço sub-retiniano, por uma pequena abertura na retina.
    A visão periférica é afetada?+
    No estudo, não. A acuidade visual periférica natural após o implante manteve-se equivalente à do início do acompanhamento. Como o chip é posicionado sob a área já atrofiada, a retina periférica funcional é preservada.
    Quando o PRIMA chega ao Brasil?+
    Não há previsão. O dispositivo ainda não foi submetido à Anvisa. Qualquer estimativa de prazo, neste momento, seria especulação.
    Tenho DMRI. O que faço agora?+
    Mantenha o acompanhamento regular com seu oftalmologista. O estágio da doença determina a conduta, e nas formas iniciais e intermediárias existem medidas com impacto comprovado na progressão — controle de fatores de risco, orientação nutricional específica e monitoramento periódico da mácula.

    Quem acompanha você

    Dr. Iuri Castro em centro cirúrgico, paramentado, operando ao microscópio oftalmológico.
    Dr. Iuri David Castro em procedimento no centro cirúrgico. Imagem ilustrativa da rotina cirúrgica em retina e catarata — o implante PRIMA não é realizado no Brasil.

    Sou oftalmologista com atuação em retina e catarata, e acompanho pacientes com degeneração macular em suas diferentes fases. Inovações como o PRIMA mudam o horizonte da especialidade, mas o que altera o curso da doença hoje continua sendo o diagnóstico no tempo certo e o acompanhamento consistente.


    Fontes

    • Holz FG et al. Subretinal Photovoltaic Implant to Restore Vision in Geographic Atrophy Due to AMD. New England Journal of Medicine, 15 de janeiro de 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2501396. Estudo PRIMAvera, registro NCT04676854.
    • Science Corporation. Comunicado de lançamento comercial europeu do PRIMA e obtenção da marcação CE sob o Regulamento Europeu de Dispositivos Médicos (MDR), emitida pelo organismo notificado DEKRA, julho de 2026.
    • American Academy of Ophthalmology. Análise editorial dos resultados do estudo PRIMAvera, incluindo detalhamento dos eventos adversos graves.
    • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — sem registro ou submissão do dispositivo até a data de atualização desta página.
    • Imagem do chip: Science Corporation, material de divulgação. Demais imagens e ilustrações: acervo próprio.

    Acompanhamento da retina

    O diagnóstico precoce e o acompanhamento regular da degeneração macular seguem sendo o que muda o curso da doença. Se você tem DMRI ou histórico familiar, agende uma avaliação.

    Agendar consulta