O que aconteceu
O implante de retina PRIMA, desenvolvido pela Science Corporation, recebeu a marcação CE — a certificação que autoriza a comercialização de dispositivos médicos na Europa. Com isso, ele passa a poder ser oferecido em 30 países europeus, e os primeiros procedimentos comerciais estão previstos para a Alemanha.
A relevância não está no carimbo regulatório em si, mas no que ele representa. Até agora, a atrofia macular geográfica — a forma avançada da degeneração macular relacionada à idade (DMRI) na sua versão seca — não tinha nenhum tratamento capaz de recuperar a visão central já perdida. As terapias existentes buscam retardar a progressão da lesão. Nenhuma devolvia o que já havia sido perdido.
O PRIMA é o primeiro dispositivo autorizado na Europa com essa finalidade.
Antes de tudo: o que é atrofia macular geográfica
A mácula é a região central da retina, responsável pela visão de detalhe: ler, reconhecer rostos, enfiar linha na agulha. Na DMRI seca avançada, as células fotorreceptoras dessa região morrem progressivamente e deixam uma área de atrofia — daí o nome atrofia macular geográfica.
O resultado é uma mancha escura ou vazia bem no centro do campo visual. A visão periférica costuma permanecer, o que permite andar pela casa e se orientar no ambiente, mas a leitura e o reconhecimento de rostos se tornam impossíveis. É uma das principais causas de cegueira legal em pessoas acima dos 60 anos, e atinge cerca de 5 milhões de pessoas no mundo.
Um detalhe que explica por que o PRIMA funciona: na atrofia macular geográfica, morrem os fotorreceptores, mas boa parte dos demais neurônios da retina continua viva e funcional. O caminho até o cérebro está preservado — falta quem capte a luz e inicie o sinal.
Como a tecnologia funciona
O sistema tem três partes: um microchip implantado no olho, um óculos com câmera e um processador de bolso.
O implante é um chip de silício de 2 x 2 milímetros e apenas 30 micrômetros de espessura — mais fino que um fio de cabelo —, com 378 células fotovoltaicas. Ele é posicionado cirurgicamente abaixo da retina, no espaço sub-retiniano, exatamente sob a área atrofiada.

- 1A câmera capta a cenaUma câmera montada no óculos registra o que está à frente do paciente.
- 2O processador interpreta a imagemUm pequeno computador de bolso converte a cena em um padrão de luz, com recurso de zoom para ampliar letras.
- 3O óculos projeta luz infravermelhaEsse padrão é projetado para dentro do olho em luz infravermelha, invisível e indolor.
- 4O chip converte o sinal em estímulo elétricoO implante transforma a luz infravermelha recebida em estimulação elétrica dirigida aos neurônios da retina. Não há bateria nem fios: é a própria luz projetada que ativa o dispositivo.
- 5A retina leva o sinal ao cérebroOs neurônios remanescentes da retina recebem o estímulo e o transmitem pelo nervo óptico, como fariam com um sinal natural.

A ausência de fios atravessando a parede do olho é uma diferença importante em relação aos implantes de retina de gerações anteriores: simplifica a cirurgia e reduz riscos de complicação a longo prazo.
O que o estudo mostrou
Estudo PRIMAvera, publicado no New England Journal of Medicine em janeiro de 2026. Foram 38 pacientes acompanhados em 17 centros de cinco países europeus; 32 completaram os 12 meses de seguimento.
O último número merece destaque. Devolver visão central ao custo de comprometer a periférica seria uma troca ruim: é a visão periférica que permite ao paciente caminhar com segurança. O implante foi posicionado sob a área já atrofiada, sem prejuízo da visão natural remanescente.
E os riscos?
Trata-se de uma cirurgia intraocular, e o estudo registrou isso com transparência: 26 eventos adversos graves em 19 dos 38 participantes. A maior parte — 81% — ocorreu nos dois primeiros meses após a cirurgia, e 95% desses se resolveram em até dois meses. Quatro foram classificados como graves: buraco macular de espessura total, hipertensão ocular, descolamento de retina e vitreorretinopatia proliferativa.
Os autores observam que esse perfil de complicações é compatível com o que se espera de uma vitrectomia com manipulação sub-retiniana. A cirurgia envolve vitrectomia seguida da introdução do chip por uma pequena retinotomia, e leva menos de duas horas nas mãos de um cirurgião de retina treinado.
Para quem o implante é indicado
Os critérios do estudo dão a medida de quem se beneficia. Foram incluídos pacientes com atrofia macular geográfica envolvendo a fóvea, com lesão maior que 2,4 mm, e acuidade visual de 1,2 logMAR ou pior — algo em torno de 20/300. Ou seja: perda central já grave e consolidada, nos dois olhos.
Isso significa que o PRIMA não é destinado a quem tem DMRI inicial ou intermediária, nem a quem tem a forma úmida da doença — esta já conta com tratamento estabelecido por injeções intravítreas de antiangiogênicos. Quem está nessas fases tem outras condutas disponíveis, e o acompanhamento regular continua sendo o que muda o desfecho.
Não é cura, e não devolve a visão que a pessoa tinha antes da doença. A visão obtida é protética: em tons de cinza, com resolução limitada, e exige um período de treinamento e reabilitação até que o paciente aprenda a interpretar o que passa a enxergar. O objetivo é funcional — voltar a ler, ganhar autonomia —, não restaurar a visão original.
E no Brasil?
Aqui é preciso ser direto: o PRIMA ainda não está disponível no Brasil e não há previsão de chegada. O dispositivo não foi submetido à análise da Anvisa até o momento. Nos Estados Unidos, segue em avaliação pelo FDA, onde recebeu as designações de Breakthrough Device e Humanitarian Use Device, que aceleram a tramitação, mas não equivalem a aprovação.
O caminho habitual para tecnologias desse porte é o registro em mercados maiores primeiro, seguido da submissão à agência brasileira. Não há como estimar prazo com honestidade.
A fabricante também estuda o uso da tecnologia em doenças hereditárias da retina, como a doença de Stargardt e a retinose pigmentar. São indicações ainda em desenvolvimento, sem estudos clínicos concluídos e sem aprovação — vale acompanhar, sem criar expectativa de prazo.
Sobre esta página: este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educativa. O implante PRIMA não é oferecido nesta clínica nem em nenhum serviço no Brasil, por não possuir registro na Anvisa. Nenhuma informação aqui substitui a avaliação individual com seu oftalmologista.
Perguntas frequentes
Quem tem DMRI seca vai enxergar normalmente de novo?+–
O implante serve para a DMRI úmida?+–
Quanto tempo dura a cirurgia?+–
A visão periférica é afetada?+–
Quando o PRIMA chega ao Brasil?+–
Tenho DMRI. O que faço agora?+–
Quem acompanha você

Sou oftalmologista com atuação em retina e catarata, e acompanho pacientes com degeneração macular em suas diferentes fases. Inovações como o PRIMA mudam o horizonte da especialidade, mas o que altera o curso da doença hoje continua sendo o diagnóstico no tempo certo e o acompanhamento consistente.
Fontes
- Holz FG et al. Subretinal Photovoltaic Implant to Restore Vision in Geographic Atrophy Due to AMD. New England Journal of Medicine, 15 de janeiro de 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2501396. Estudo PRIMAvera, registro NCT04676854.
- Science Corporation. Comunicado de lançamento comercial europeu do PRIMA e obtenção da marcação CE sob o Regulamento Europeu de Dispositivos Médicos (MDR), emitida pelo organismo notificado DEKRA, julho de 2026.
- American Academy of Ophthalmology. Análise editorial dos resultados do estudo PRIMAvera, incluindo detalhamento dos eventos adversos graves.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — sem registro ou submissão do dispositivo até a data de atualização desta página.
- Imagem do chip: Science Corporation, material de divulgação. Demais imagens e ilustrações: acervo próprio.
