Retina — Degeneração macular

    DMRI úmida: os tratamentos disponíveis hoje

    Ao contrário da forma seca, a degeneração macular úmida tem tratamento eficaz e estabelecido há quase duas décadas. São quatro medicações anti-VEGF, todas aplicadas por injeção dentro do olho, e a escolha entre elas depende do seu olho, não da moda.

    Dr. Iuri David CastroOftalmologista — Retina e Catarata · CRM-MG 53.898Atualizado em agosto de 2026

    O que é a forma úmida

    A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) tem duas formas. Na seca, acumulam-se drusas sob a mácula. Na úmida, também crescem vasos anormais por baixo da retina. Eles são frágeis, sangram e vazam líquido, o que deforma a retina central e prejudica a visão de forma mais rápida.

    As drusas são depósitos amarelados de resíduos formados por gordura e proteínas, que se acumulam entre a retina e a camada de sustentação. Sua presença aumenta o risco de conversão para a forma úmida.

    Já na forma úmida, os vasos que crescem por baixo da retina são frágeis e desorganizados. O líquido que escapa deles leva a distorção de imagens, mancha central e queda da visão.

    A forma úmida responde por cerca de 10% a 15% dos casos de DMRI, mas concentra a maior parte dos casos de perda visual grave quando não tratada.

    Sinais que exigem avaliação sem demora

    A DMRI úmida é uma urgência oftalmológica. Quanto antes o tratamento começa, mais visão se preserva. Procure atendimento se notar:

    • Linhas retas que passam a parecer tortas ou onduladas — o batente de uma porta, as juntas de azulejos, as linhas de um caderno
    • Uma mancha escura, cinzenta ou vazia no centro da visão
    • Piora súbita da visão central de um olho
    • Letras que somem ou se embaralham no meio da palavra durante a leitura

    Como um olho compensa o outro, a perda pode passar despercebida por semanas. Teste cada olho separadamente, cobrindo um de cada vez.


    Como funciona o tratamento

    Todas as quatro medicações pertencem à mesma classe: os antiangiogênicos, ou anti-VEGF.

    O VEGF é uma proteína que sinaliza ao organismo a necessidade de formar novos vasos sanguíneos. Na DMRI úmida ela é produzida em excesso na retina, estimulando vasos anormais que sangram e vazam.

    Os medicamentos anti-VEGF bloqueiam essa proteína. Com o estímulo neutralizado, os vasos anormais regridem e o líquido acumulado na mácula é reabsorvido. O resultado é a estabilização e, muitas vezes, a melhora da visão.

    A medicação é aplicada dentro do olho, por injeção intravítrea. A via é necessária porque um comprimido ou uma injeção no braço não alcançam a retina em concentração suficiente.

    Como é a aplicação

    1. 1PreparoColírio anestésico e antissepsia da superfície ocular e das pálpebras com solução de iodopovidona.
    2. 2AplicaçãoA injeção é feita através da esclera, a parte branca do olho, com agulha muito fina. Dura poucos segundos.
    3. 3DepoisA maioria dos pacientes relata desconforto leve, não dor. É comum ver pontos escuros flutuando por algumas horas e uma mancha vermelha na parte branca do olho, que se resolve sozinha.
    4. 4RetornoO acompanhamento com exames de imagem define se e quando a próxima aplicação será necessária.

    Ritmo das aplicações

    O tratamento costuma começar com uma fase de ataque: três injeções mensais consecutivas, para controlar a atividade da doença. Depois, o ritmo se adapta: alguns olhos precisam de aplicações mais frequentes, outros conseguem intervalos maiores.

    O acompanhamento se apoia na tomografia de coerência óptica (OCT), exame rápido e sem contato que mostra a retina em cortes finos. Ele define se há líquido, se a doença está ativa e quando repetir a injeção.


    As quatro medicações

    Listadas na ordem em que surgiram na prática clínica. Todas são anti-VEGF e todas são aplicadas por injeção intravítrea.

    Bevacizumabe

    Nome comercial mais conhecido: Avastin

    uso off-labelmais usado no SUS

    Anticorpo desenvolvido originalmente para oncologia, registrado na Anvisa em 2005 para câncer colorretal. Oftalmologistas passaram a usá-lo dentro do olho, em doses muito menores, ainda naquele ano — antes que existisse qualquer anti-VEGF aprovado para a retina.

    É o mais barato dos quatro por larga margem, o que o tornou o medicamento mais utilizado no mundo e no serviço público brasileiro. O estudo CATT, publicado em 2011, comparou-o diretamente ao ranibizumabe e não encontrou diferença relevante no ganho de visão.

    Seu uso na oftalmologia é off-label: a bula não contempla essa indicação. Isso não significa uso irregular — é prática consolidada e amparada em literatura robusta —, mas exige que o paciente seja informado dessa condição. O frasco, feito para uso endovenoso, precisa ser fracionado em farmácia de manipulação, etapa que exige controle de qualidade rigoroso.

    • MecanismoAnticorpo completo, bloqueia o VEGF-A
    • Dose usual1,25 mg
    • Intervalo típicoMensal na fase inicial, depois conforme resposta

    Ranibizumabe

    Nomes comerciais: Lucentis, Ranivisio (biossimilar)

    registrado para uso oculardisponível no SUS

    Primeiro medicamento desenvolvido especificamente para uso dentro do olho. É um fragmento de anticorpo, molécula menor que a do bevacizumabe, projetada para penetrar melhor nas camadas da retina.

    Os estudos MARINA e ANCHOR, do fim dos anos 2000, mudaram a história da doença: pela primeira vez um tratamento não apenas estabilizava a DMRI úmida, como devolvia visão a parte dos pacientes. É o anti-VEGF com incorporação formal ao SUS.

    Desde 2025 há um biossimilar aprovado pela Anvisa, o que tende a ampliar o acesso.

    • MecanismoFragmento de anticorpo, bloqueia o VEGF-A
    • Dose usual0,5 mg
    • Intervalo típicoMensal na fase inicial, depois conforme resposta

    Aflibercepte

    Nomes comerciais: Eylia, Eylea HD (versão de 8 mg)

    registrado para uso ocular

    Não é um anticorpo, e sim uma proteína de fusão que funciona como armadilha molecular: captura o VEGF antes que ele alcance seus receptores. Bloqueia o VEGF-A, o VEGF-B e o fator de crescimento placentário, um alvo a mais que os dois anteriores.

    Sua vantagem prática é a durabilidade. Já na dose de 2 mg permite, em boa parte dos pacientes, intervalos de dois meses após a fase de ataque. A versão de 8 mg, aprovada pela Anvisa em 2026 com base no estudo PULSAR, estende ainda mais esses intervalos — para até 16 semanas em pacientes com doença controlada.

    • MecanismoProteína de fusão; bloqueia VEGF-A, VEGF-B e PlGF
    • Doses2 mg ou 8 mg
    • Intervalo típicoAté 8 semanas (2 mg) ou até 16 semanas (8 mg), conforme resposta

    Faricimabe

    Nome comercial: Vabysmo

    registrado para uso ocular

    O mais recente dos quatro, registrado na Anvisa em julho de 2023. É um anticorpo biespecífico: bloqueia duas vias diferentes ao mesmo tempo — o VEGF-A, como os demais, e também a angiopoietina-2, proteína ligada à instabilidade e ao extravasamento dos vasos.

    A proposta é atacar o problema por dois flancos, o que nos estudos TENAYA e LUCERNE se traduziu em maior durabilidade: parte relevante dos pacientes manteve a doença controlada com aplicações a cada 16 semanas.

    O ganho de visão foi comparável ao do aflibercepte. A diferença está no número de idas ao consultório — o que, para quem depende de acompanhante e transporte, costuma pesar bastante.

    • MecanismoAnticorpo biespecífico; bloqueia VEGF-A e angiopoietina-2
    • Dose usual6 mg
    • Intervalo típicoAté 16 semanas, conforme resposta
    Não existe resposta única

    E desconfie de quem der uma. Os quatro produzem resultados visuais semelhantes na maioria dos pacientes. A escolha depende do padrão da lesão, da resposta individual, de quantas aplicações o paciente consegue sustentar na prática e da disponibilidade no seu plano ou no SUS.


    Riscos e efeitos indesejados

    Injeção intravítrea é procedimento seguro e realizado milhões de vezes por ano no mundo, mas nenhum procedimento é isento de riscos.

    Comuns e passageiros: mancha vermelha no branco do olho, sensação de areia, pontos flutuantes e leve desconforto nas primeiras horas.

    Raros e graves: a complicação mais temida é a endoftalmite, uma infecção dentro do olho. Ocorre em menos de 1 a cada 2.000 injeções, mas exige tratamento urgente. Outras complicações raras incluem descolamento de retina, elevação da pressão intraocular e inflamação grave.

    Após uma injeção, procure atendimento de urgência se houver

    • Dor ocular importante ou crescente
    • Piora da visão em vez de melhora
    • Vermelhidão intensa e progressiva
    • Sensibilidade excessiva à luz acompanhada de dor

    Desconforto leve nas primeiras horas é esperado. Dor que aumenta depois do primeiro dia, não.


    O ponto que mais importa

    Nenhum dos quatro medicamentos cura a DMRI úmida. Todos controlam a atividade da doença, e o controle precisa ser mantido.

    Na prática clínica, a principal causa de perda visual em pacientes já diagnosticados não é falha do medicamento — é abandono do acompanhamento. Quando as injeções param sem controle, a doença volta a ativar.

    Por isso o acompanhamento continua mesmo quando a visão está boa. É exatamente aí que ele funciona.

    Monitoramento em casa

    Entre as consultas, vale testar cada olho separadamente todos os dias, cobrindo um de cada vez e olhando para uma superfície com linhas retas. Qualquer distorção nova ou mancha central merece avaliação dentro de poucos dias.


    Acesso ao tratamento no Brasil

    As injeções intravítreas são oferecidas no SUS dentro da Política Nacional de Atenção em Oftalmologia, em geral com bevacizumabe e ranibizumabe. A oferta varia entre os serviços e regiões.

    Nos planos de saúde, a cobertura do procedimento é obrigatória, mas a do medicamento específico depende do rol da ANS e da contratação do plano. Aflibercepte e faricimabe, por exemplo, nem sempre estão disponíveis sem autorização prévia.

    Se houver recusa, peça a justificativa por escrito. O relatório médico detalhado, com o motivo clínico da escolha e o histórico de resposta a outras medicações, é o principal instrumento para reverter negativas.

    Sobre esta página: conteúdo com finalidade informativa e educativa. Não substitui a consulta oftalmológica, e nenhuma medicação deve ser iniciada, suspensa ou trocada sem orientação do seu oftalmologista.


    Perguntas frequentes

    A injeção dói?+

    O olho é anestesiado com colírio antes do procedimento. A maioria dos pacientes descreve pressão ou desconforto breve, não dor intensa. A sensação costuma desaparecer em poucos minutos.

    Quantas injeções vou precisar?+

    Não há número fixo. O tratamento costuma começar com três aplicações mensais e depois se individualiza conforme a resposta na tomografia de coerência óptica (OCT).

    Posso parar quando a visão melhorar?+

    Não por conta própria. A melhora indica que o tratamento está funcionando, não que a doença acabou. Interromper o acompanhamento é uma das principais causas de perda visual em pacientes já diagnosticados.

    Bevacizumabe é inferior por ser off-label e mais barato?+

    Não. Estudos comparativos de grande porte, como o CATT, mostraram resultados visuais semelhantes aos do ranibizumabe. O preço mais baixo se deve ao frasco maior e à necessidade de fracionamento, não à eficácia.

    Tenho DMRI seca. Posso desenvolver a forma úmida?+

    Sim, é possível. A conversão pode ocorrer a qualquer momento e costuma ser rápida. Por isso quem tem a forma seca mantém acompanhamento periódico e testa a visão de cada olho separadamente.

    O tratamento serve para a forma seca?+

    Não. Os anti-VEGF agem sobre os vasos anormais, que existem apenas na forma úmida. A forma seca avançada, com atrofia macular geográfica, tem outras condutas.

    Avaliação da retina

    Distorção de linhas retas ou mancha central em um dos olhos exige avaliação rápida. Na DMRI úmida, cada semana conta.

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